Património Ambiental

Recuperando o trabalho de Pinho (2013)[1], a freguesia é atravessada por duas principais unidades morfo-estruturais de Portugal: a Orla MesoCenozoica, de origem sedimentar com domínio dos calcários e alguns arenitos, e o Maciço Antigo, do complexo xistograuvático, com ocorrência de xistos. A terra é essencialmente argilosa. A sua paisagem é marcada por serras, planaltos e vales, com destaque para a Serra do Alhastro e, ainda, por planaltos, colinas, montes de menor expressão: o Cabeço da Azenha, Cabeço das Almoinhas e o Cabeço dos Moinhos.

Com efeito, o seu património ambiental é envolto numa biodiversidade única, característico da região em que se insere, e uma paisagem constituída por flora, fauna e recursos hídricos determinantes para a sustentabilidade da freguesia e da região. Por isso, relativamente à ocupação do solo, a natureza geológica da freguesia, a sua topografia, com montes, outeiros, planaltos e vales, bem como uma importante rede hidrográfica tem permitido uma agricultura rica e variada, sendo o olival e a vinha as culturas dominantes. Destaca-se a presença do minifúndio, relacionado com a fertilidade do solo, uma vez que esta freguesia se situa no extremo Norte do “Campo do Mondego” e possui uma área considerável de terras irrigadas pelos Rio Botão e Rio Resmungão (outro topónimo para Ribeira de Souselas), bem como o elevado número de vales e pequenos ribeiros seus afluentes (que integram a sub-bacia hidrográfica do Rio dos Fornos).

A freguesia caracteriza-se por grande diversidade de habitats, de flora e fauna, com uma relevância em termos de biodiversidade e conservação da natureza (sobretudo na área das Serras de Brasfemes e do Alhastro). Segundo a carta de ocupação do solo[2], na freguesia de Souselas e Botão predominam a floresta de folhosas, sobretudo eucaliptos, mas também outras espécies invasoras, assim como a floresta de resinosas, maioritariamente pinheiros bravos (Pinus pinaster). Todavia, muitos destes povoamentos são mistos, com algumas ocorrências de pinheiro-manso (Pinus pineo). A exploração desta floresta tem alguma representatividade na economia local, com a venda da madeira de pinheiro para as serrações e a de eucalipto para a indústria de celulose. Em alguns focos, subsistem ainda alguns vestígios da floresta primitiva, existindo exemplares de carvalho-cerquinho ou português (Quercus faginea subsp. broteroi), para além do carvalho-alvarinho (Quercus robur), do carrasco (Quercus coccifera), e do sobreiro (Quercus suber). Para além de outras espécies pontuais, identificam-se também alguns castanheiros (Castanea sativa) e aveleiras (Corylus avellana), nos pontos mais húmidos. Nas zonas mais secas ocorre a azinheira (Quercus rotundifolia). O azevinho (Ilex aquifolium L.), também ocorre em alguns locais. Nas zonas ribeirinhas surgem importantes núcleos de Salgueiros pretos (Salix atrocinerea) e brancos (Salix alba).  Existem também alguns choupais de Choupo-branco (Populus alba) e negro (Populus nigra), destinados à indústria da madeira.

Castanheiro
Carvalho-alvarinho

Choupo branco
Azinheira
Salgueiro branco

A flora endémica conta também com a presença de algumas espécies aromáticas características dos calcários, de grande valor medicinal. No coberto vegetal da Serra de Brasfemes e do Alhastro encontram-se mais de duas centenas de espécies de plantas, muitas delas aromáticas, como por exemplo a aroeira (Pistacia lentiscus), o aderno (Phillyrea latifolia) a rosabrava (Rosa sempervirens), a murta (Myrtus communis), o funcho (Foeniculum vulgare), a salva bastarda (Salvia sclareoides) e os orégãos

(Origanum virens), o alecrim (Rosmarinus officinalis), rosmaninho (Lavandula luisieri) e tomilhos (Thymus spp.).

Aroreira
Murta
Tomilho

 No que diz respeito à fauna, esta é bastante diversificada, por via da riqueza de habitats e biótopos, naturais e seminaturais distintos, que são locais de alimentação, reprodução e refúgio. Na avifauna o grupo dos passeriformes é o mais representativo em todo o território da Freguesia seguindo-se as aves de rapina. Sem pretensão de listar exaustivamente todas as espécies existentes, refira-se o pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), o verdilhão (Carduelis chloris), o tentilhão (Fringilla coelebs) e os chapins (Parus spp.), o melro (Turdus merula), o pardal-montês (Passer montanus), a trepadeira-comum (Certhia brachydactyla), a alvéola-branca (Motacilla alba), a carriça (Troglodytes troglodytes) e a poupa (Upupa epops). Também a garça pequena-branca (Egretta garzetta) e a garçaboieira (Bubulcus ibis), o pato-real (Anas platyrhynchos), a galinha-d’água (Gallinula chloropus), a galinhola (Scolopax rusticola), o galeirão (Fulica atra), e a narceja-comum (Gallinago gallinago). Relativamente às aves de rapina, cruzam os céus desta freguesia a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), o milhafre-preto (Milvus migrans) e o peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus), falcão-peregrino (Falco peregrinus), o açor (Accipiter gentilis) e o gavião (Accipiter nisus), a coruja–das-torres (Tyto alba), o mochogalego (Athene noctua), o mocho-d’orelhas (Otus scops), o bufo-real (Bubo bubo), e a coruja-do-mato (Strix aluco) entre muitas outras espécies.

Ainda na fauna, encontram-se de coelhos-bravos (Oryctolagus cuniculus) e, com menor probabilidade, a lebre (Lepus granatensis). Também a raposa (Vulpes vulpes), otexugo (Meles meles), a doninha (Mustela nivalis), a lontra (Lutra lutra) a geneta (Genetta genetta), e o javali (Sus scrofa). Existem também várias espécies da herpetofauna (de répteis e anfíbios), como o sardão (Lacerta lepida), a cobra-de-ferradura (Coluber hippocrepis), o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa), asalamandra-de-pintas amarelas (Salamandra salamandra), tritão-de ventrelaranja (Triturus boscai), e várias rãs e sapos. No que diz respeito à ictiofauna, os peixes mais comuns de encontrar nas águas da freguesia são a enguia (Anguilla anguilla), barbo (Barbus bocagei), boga (Chondrostoma polylepis), ruivaco (Chondrostoma macrolepidotus), e algumas espécies exóticas como a perca-sol (Lepomis gibbosus), o pimpão (Caracius sp.), o achigã (Micropterus salmoides) e a gambúsia (Gambusia holbrooki).


[1] Pinho, J. (2013). Freguesia de Souselas: Um povo com História. Junta de freguesia de Souselas, Coimbra.

[2] COS2018, Direção-Geral do Território